Diversidade de gerações torna equipes mais produtivas e criativas, aponta estudo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a quantidade de pessoas com idade acima de 60 anos chegue a 2 bilhões em 2050, representando um quinto da população mundial. No Brasil, a previsão é de que essa faixa etária some 31 milhões de pessoas no mesmo ano. E diante desse envelhecimento da população, o mercado de trabalho vai precisar, mesmo que à revelia, se adequar e proporcionar um ambiente mais diverso, com várias gerações atuando em conjunto. E isso pode ser positivo, inclusive para os resultados das empresas.

 

Entre as conclusões do estudo Rotas Diversidade e Longevidade 2035, liderado pelo Centro de Inovação Sesi (CIS) em Longevidade e Produtividade, com cooperação técnica do Observatório Sistema Fiep, está a que mostra que os ambientes laborais com pessoas de várias faixas etárias, inclusive acima dos 60 anos, são mais criativos e inovadores. E isso reflete não apenas na criação de um espaço harmônico entre os colaboradores, mas também no aspecto financeiro, com mais produtividade.

 

“As empresas devem entender que precisam de um ambiente com mais diversidade. Isso faz toda a diferença em um momento de crise. Quando se promove diversidade, promove-se a inovação”, afirma a coordenadora do CIS Longevidade e Produtividade, Noélly Mercer.

 

A gerente de Recursos Humanos da Bosch Curitiba, Paula Pessoa, não tem dúvidas sobre a importância da diversidade. Para ela, a tomada de decisões e a capacidade de resolver problemas são mais assertivas em um ambiente intergeracional. “O nível de criatividade e de inovação aumenta exponencialmente quando ocorrem dentro de times diversos”, diz.

 

Apesar disso, ainda existem diversas barreiras para que as empresas de fato sejam mais diversas e que valorizem o profissional idoso. A principal delas é o preconceito contra as pessoas mais velhas, que não é uma exclusividade apenas dos ambientes corporativos, mas da sociedade como um todo. Enxergar e reconhecer as capacidades dos idosos é, segundo especialistas, imperativo para um mundo no qual a expectativa de vida aumenta e a taxa de natalidade reduz.

 

“O idadismo é um aspecto muito arraigado na sociedade. É uma questão universal e que vai voltar à pauta de uma forma muito importante, afinal os idosos são o único grupo da população que cresce, e se desperdiçarmos esse material humano, teremos problemas”, opina o médico e especialista em gerontologia e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, Alexandre Kalache.

 

Quebrar esse preconceito não é simples e exige muito esforço das empresas em planejar e colocar em prática programas de incentivo que sigam no sentido da diversidade etária. Entre as várias ações sugeridas pelo estudo Rotas 2035, estão o investimento em educação, a implementação do uso do conceito de ambiente laboral de todas as idades, a construção de conteúdos informativos sobre sistemas previdenciários e planos de aposentadoria, e mapeamento de modelos de negócio e empreendimentos focados no envelhecimento.

 

Esse processo, porém, pode ser lento. Mesmo assim, vale a pena, garante Paula Pessoa. “Quando temos várias gerações, temos diversidade e isso geralmente é mais rico e traz decisões melhores. Mas até dar espaço para esses valores, experiências e backgrounds, as discussões levam mais tempo para acontecer. E isso, na velocidade com que as coisas acontecem hoje, é um grande desafio. A diversidade no trabalho é rica, mas dá trabalho e muitas vezes demora.”

 

Choque de gerações

 

Acabar com o preconceito exige um esforço de todas as partes, dos jovens e dos mais velhos. O desafio das empresas é fomentar isso sem que seja algo forçado. E um resultado positivo das ações também depende das próprias pessoas, de quão dispostas estão a ouvir e aprender umas com as outras. O analista de Recursos Humanos, Edilson Santos, trabalha na Bosch há 33 anos. Ele entrou na empresa ainda jovem, em 1987, no setor da portaria. Hoje, com seus 56 anos, sabe que é preciso ouvir para ser ouvido. “Se tiver a cabeça aberta, os choques de geração diminuem”, sugere.
“Eu tenho cabelos brancos e tenho que fazer um esforço um pouco maior porque para os jovens sou velho e ultrapassado. E buscar a interação com os mais jovens acaba minimizando os impactos. A proximidade proporciona trocas e construímos algo bem melhor”, garante Santos.

 

Para Kalache, o idoso valoriza mais o trabalho, ele se esforça mais. É difícil, por exemplo, que ele falte ao trabalho. Com isso, ele acaba se tornando um exemplo, um modelo a ser seguido dentro das empresas. Como consequência, o ambiente laboral se torna mais harmônico e as relações intergeracionais melhoram. Há, inclusive, a possibilidade de transformar os profissionais mais velhos em mentores dos jovens, passando não apenas o conhecimento, mas principalmente as experiências e as atitudes. “Muitos chegam a um determinado grau na carreira que aspirava quando era mais jovem e agora passa a inspirar e instruir os mais jovens, exercendo um papel de mentor. E isso tem um papel muito importante”, completa o médico e especialista em gerontologia.

 

É exatamente esse ponto que Paula Pessoa reforça, que são as atitudes como exemplos. “Acho que [os jovens] podem aprender com a maturidade, não necessariamente o conteúdo, mas a forma como resolver, como lidar com pessoas, como encarar os desafios. Essas são as grandes oportunidades para os jovens que trabalham com pessoas de outras gerações”, diz.

 

“Há algum tempo, a assistente jurídica Jedalva Oliveira não imaginava que aos 62 anos prestaria vestibular. Ainda mais quando há nove anos, aos 55, se viu fora do mercado de trabalho. Mas hoje, aos 64 anos, está no segundo ano do curso de Direito. Uma história que só foi possível por um desejo próprio de estar sempre atualizada e também por um ambiente de trabalho que incentiva a busca por qualificação. “Depois de uma certa idade, é normal se perguntar ‘para que trabalhar?’, ‘para que voltar para a faculdade?’. Isso é, de certa forma, uma ousadia. Mas é um desafio muito importante”, comenta.

 

O fato de trabalhar em uma empresa de tecnologia ajudou, especialmente depois de ter passado 21 anos em uma organização que não se atualizava. Em um ambiente com novidades e com treinamentos constantes, ganhou motivação. E foi assim que acabou mudando de cargo dentro da Radiante: depois de quase nove anos trabalhando como coordenadora de Recursos Humanos, aceitou o desafio de partir para a área jurídica da organização. “Cada dia é uma nova descoberta”, celebra.

 

Foi assim que Edilson Santos também conseguiu fazer carreira. Com uma graduação e três especializações, tem certeza de que essa sede por conhecimento foi responsável pelo crescimento dentro da mesma empresa, apesar dos vários obstáculos que precisou ultrapassar, especialmente lá atrás. “Quando comecei na segurança eu sempre procurava fazer alguma coisa para me atualizar, seja dentro da minha área ou fora. Como eu trabalhava em revezamento de turno semanal, tinha dificuldade de fazer cursos maiores, mas sempre buscava cursos no Senac de uma semana. E ao longo do tempo percebi que era importante para mim, que assim iria crescer como profissional e como pessoa”, conta.

 

Os casos de Jedalva e Edilson, entretanto, não são unanimidade. Mais do que a própria vontade, especialistas afirmam que as empresas devem ter uma participação importante no aprendizado ao longo da vida. As organizações que incentivam os colaboradores a se atualizarem, inclusive com apoio financeiro, acabam ganhando não apenas um profissional mais qualificado, mas também mais motivado, independentemente da idade.

 

“Dentro das empresas é preciso trabalhar a manutenção da capacidade, de aprendizagem ao longo da vida. O indivíduo precisa buscar cursos e se atualizar constantemente, porque tudo muda de uma forma acelerada. É importante estudar e trabalhar ao longo da vida”, sugere a coordenadora do CIS Longevidade e Produtividade, Noélly Mercer.

 

“No Brasil não se investe em aprendizado ao longo da vida. Adquire-se o conhecimento na juventude e para por aí. São raras as empresas que investem em material humano, que é o recurso mais importante que ela tem, seja pública ou privada. Se parar de aprender, acabou. Vai chegar a uma altura da vida, com alto grau de desemprego, que não vai conseguir mais competir”, complementa Kalache.

 

Fonte: Gazeta do Povo.

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