Visitas virtuais, orações e muita televisão: como está a rotina nos lares geriátricos

Redutos de uma população mais vulnerável ao coronavírus, as geriatrias de Porto Alegre estão em alerta. Um dos óbitos registrados na Capital foi de uma idosa que morava em uma clínica geriátrica. Para não correr esse risco, algumas casas têm optado por medidas mais rigorosas do que aquelas recomendadas pelas autoridades, suspendendo totalmente as visitas de familiares em vez de apenas reduzir horários. Para contornar a saudade, os idosos preenchem os dias com ligações virtuais, televisão e orações.

 

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) enviou orientações a cerca de 150 Instituições de Longa Permanência para Idosos (Ilpis) em Porto Alegre, como clínicas, residenciais e comunidades terapêuticas. Cada uma abriga de 15 a 20 idosos, que devem ser monitorados de perto para que sintomas de síndromes respiratórias sejam identificados e informados à SMS. A orientação é que as casas melhorem a higiene, utilizem equipamentos de proteção individual (EPIs), limitem as visitas, vacinem idosos e funcionários. Já o Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) recomendou também a interrupção de atividades lúdicas e de fisioterapia eletiva.

 

O diretor da Vigilância em Saúde de Porto Alegre, Anderson Lima, afirma que nas últimas semanas 30 Ilpis foram vistoriadas para garantir o cumprimento dessas medidas.

 

— Quando somos comunicados por uma Ilpi, temos estratégia para testar o funcionário no drive-thru, no largo da Epatur, e, se for interno, vamos lá coletar o material. Na medida em que tiver algum caso suspeito, vamos agir com celeridade — promete Lima.

 

Preocupada com a pandemia, a Gerontologia Santa Cecília foi uma das primeiras a suspender as visitas de familiares, ainda em 13 de março. Desde então, a bancária aposentada Neusa Beatriz Dias aciona as cuidadoras da casa para que ajudem a mãe, Leila, a receber chamadas por vídeo ou áudio.

 

— Ainda não a vi triste, está sempre alegre, mas gostava de receber visita e está perguntando se tudo isso vai demorar muito — relata Neusa, que costumava visitar a mãe duas vezes por semana.

 

A bancária conta que Leila Barbosa Dias, 86 anos, tem alzheimer e parkinson, mas ainda reconhece as filhas e tem momentos de lucidez. Vaidosa, está sempre com colar, pulseira e anel. Com a ajuda da cuidadora, Leila manda notícias à filha por mensagem de áudio:

 

— Estou com muita saudade tua, estava preocupada com esse vírus que anda aí.

 

A clínica também pede que parentes enviem vídeos e incrementou o calendário de atividades, com orações, aulas variadas e musicoterapia. Depois de uma aula de culinária, Évora da Rosa e Silva, 92 anos, mandou um áudio para a repórter (para evitar expor os idosos a riscos, esta reportagem foi feita a distância):

 

— Estou ficando com saudades de todo mundo, quem não sente saudades numa hora dessas? Dos meus filhos. Mas estão todos felizes, então eu me sinto feliz por isso. Uma noite feliz para ti, que assim seja.

 

O novo uniforme da casa para os funcionários inclui aventais e máscaras descartáveis, toucas e, eventualmente, escudo facial. Portanto, também eles estão mais distantes dos idosos:

 

— Tentamos sorrir com os olhos porque estamos sempre de máscara. Para eles perceberem que não estão sozinhos nem abandonados — diz a proprietária, a gerontóloga Ana Vitória Sacramento.

 

Localizado no bairro Cidade Baixa, o Residencial Lima e Silva encontrou um jeito alternativo de manter as visitas. A funcionária pública aposentada Sonaly Delaunay, 56 anos, para diante do portão e força a voz para que ela alcance a sua mãe. A escritora e artista Olga Silveira, 81 anos, permanece dentro da casa, a cerca de dois metros de distância da rua.

 

— Primeiro, tentei dizer que estava trabalhando muito, por isso não ia mais poder vir, mas daí explicaram para ela. Ela sabe que tem algo ruim acontecendo, que tem gente morrendo, mas estou tranquila porque não está entrando ninguém — diz Sonaly.

 

Muitos dos 20 hóspedes da casa sofrem de demência ou alzheimer, como Olga. Por isso, as funcionárias têm de explicar a ausência dos parentes. Márcia Rodrigues, auxiliar administrativa da casa, conta que as visitas ao vivo, mesmo a distância, são um alento especialmente para aqueles que não ficam à vontade com a tecnologia das chamadas por vídeo.

 

— Tem bastante gente que vem aqui na calçada e fala com eles de fora pra dentro, vê que estão bem. Esses dias tinha uns quatro, estava um falatório. Algumas vezes, o telefone os deixa mais nervosos — conta Márcia.

 

No Asilo Padre Cacique, lar de 103 idosos de 62 a 96 anos, as visitas de familiares já não eram frequentes antes da pandemia. A casa acolhe idosos carentes com renda de no máximo um salário mínimo e sem responsáveis por eles. Como alguns deixavam o asilo para vender coisas na rua ou visitar conhecidos, o presidente Edson Brozoza decidiu ser rigoroso:

 

— Falei que quem sair não volta mais. Tínhamos 104 moradores, uma família resolveu tirar uma moradora, assinou termo que ela não volta.

 

O advogado que administra a casa se preocupa especialmente com os idosos em estado crítico. Há vários deles na enfermaria, alimentando-se por sonda. Além de dispensar os funcionários com qualquer sintoma de gripe, o asilo aumentou as medidas de higiene e distribuiu EPIs à equipe.

 

— Eles trocam a luva ao mudar o paciente, passam no máximo duas horas com a mesma máscara, passam por higienização na entrada e na saída — relata Brozoza.

 

Outra providência foi cortar o noticiário, que coincidia com o horário das refeições. Agora os quatro televisores no refeitório mostram vídeos de festas promovidas no passado. Moradora do asilo há nove anos, Vilma Brandina Jacinto Mazarem, 83 anos, prefere assim:

 

— Leio muito que assim o tempo passa rápido, rezo, tenho bastante amigas, umas fazem crochê. Mas não olho mais as notícias porque fico nervosa — conta a idosa, que mantém o bom humor. – Queria sair para namorar, mas não dá.

 

Nas últimas semanas, as doações ao asilo caíram mais de 80%, e a receita de R$ 70 mil que vinha do aluguel de outros imóveis da instituição também foi reduzida, pois locadores cortaram parte do pagamento. Segundo o presidente, as despesas mensais somam cerca de R$ 500 mil – só a conta dos remédios varia de R$ 45 mil (quando há doação de algum laboratório) a R$ 70 mil. E a folha de pagamento dos funcionários (são 98) é o que mais pesa: R$ 400 mil.

 

— Não recebemos muito das pessoas com posse, e sim das humildes. Teve uma senhora que veio de Alvorada trazer duas caixinhas de leite porque ouviu o Macedo pedindo na Rádio Gaúcha. Nosso consumo diário é de cem caixas de leite — ressalta Brozoza.

 

Fonte: Gaúchazh.